Análise externa — Capítulo 4

Apresentando: Clara Lysgaard e o Sol da Meia-Noite



Nesta capa temos a diva maravilhosa rainha desse livro, além da protagonista Clara...


Acabou o sossego...

Meus queridos, depois de uma semana de férias mal aproveitadas por causa da gripe do porco eu voltei. Agora sim, saudável e ativo (talvez mais saudável do que ativo, pra variar. Não dá pra querer tudo). E hoje eu já vou trazendo de volta um quadro que há muito não aparecia por essas bandas. Trata-se da Análise Externa.

Caso alguém ainda não esteja familiarizado com o blog, esse quadro nada mais é do que uma resenha sobre um livro que eu li recentemente. Abaixo vão os links dos outros artigos do tipo que fiz até agora:

Aleph: O Guerreiro Oculto (Lucas Martins)
Paciente 17 (Aline N.)
Ascendente (Aline Duarte)

Então... a bola da vez é mais um livro do Lucas Martins: Clara Lysgaard e o Sol da Meia Noite (link para a página na Amazon). Como ele foi o primeiro dos autores parceiros de quem eu li um livro, achei justo ler um segundo livro dele antes de outro das meninas. Sem contar que eu já estava curioso (ainda estou, aliás) sobre como essa teia do MartinsVerse vai se conectar. Fora o fato de que eu costumo me organizar assim o nome disso é "rigidez cognitiva".

Não tive motivos específicos pra escolher esse livro em particular. Afinal, se o próprio autor diz que o universo dele não tem uma ordem específica (até certa parte, pelo menos), significa que eu poderia escolher qualquer um. Acho que as poucas razões por trás da minha escolha foram as coisas que o próprio Lucas me contava, o que me deixou mais curioso quanto a este aqui, e o fato de eu me identificar com a protagonista (já vou explicar).

Sendo assim, vamos em frente, pra isso aqui não ficar mais enrolado que fiação de poste gateado...


Protagonista

Assim como fiz na análise do Aleph, o que vai na contramão do que fiz com as resenhas dos livros das meninas, vou falar da protagonista antes do enredo. Faço isso porque como a maior parte das história do Lucas são narradas em primeira pessoa, eu vejo a narrativa sendo, digamos, menos reveladora. Isso, porque histórias narradas em terceira pessoa geralmente vão mostrando o caminho para o leitor, enquanto ouvir a narrativa diretamente do personagem dá a impressão de que nós estamos descobrindo a história com os personagens. É uma narrativa que não te o mistério, mas te traz pra ele. É a impressão que eu tenho, pelo menos. Foi assim com o Aleph, e se repetiu com a Clara.

Clara Lysgaard é uma jovem que está na transição da adolescência para a vida adulta. Ela é uma descendente de noruegueses e vive em Santa Catarina.

Breve nota: mano... quando eu acho que já exorcizei os meus fantasmas, me aparece outra Clara, loira e que mora no litoral de Santa Catarina. Já não me traumatizaram o suficiente? Eu mereço...

Se você não entendeu, volta ali em cima e vai no link do artigo sobre o livro da Aline Duarte. Aproveita e se joga na leitura...

Clara não conheceu seus pais, mas foi criada com muito amor pelos seus tios, Erik (norueguês, tio biológico de Clara por parte de mãe) e Lúcia. Ela está começando a faculdade, sendo estudante de arqueologia. Um detalhe interessante é que a protagonista possui Transtorno do Espectro Autista grau 1 de suporte (não lembro se é dito que o grau de suporte dela é 1, mas é fácil deduzir isso, pois ela se comunica normalmente e tem poucas características mais acentuadas). Foi isso o que eu quis dizer quando falei da identificação com o personagem, uma vez que também tenho TEA nível 1. Uma das tais características acentuadas que mencionei é o "hiperfoco". No caso dela, o interesse restrito é a mitologia nórdica, que foi a principal razão para ela escolher o curso de arqueologia, o que é a porta de entrada para o plot.

No geral, Clara parece uma garota completamente típica, embora sofra algumas crises sensoriais, volta e meia. É uma protagonista apegada à sua família, focada, determinada, protetora, um pouco temperamental, valente e curiosa (onde foi que eu já vi alguém assim?).


Enredo

Como dito, a protagonista está iniciando a faculdade de arqueologia, na intenção de aprofundar seu conhecimento, tendo a mitologia nórdica, seu hiperfoco, como o principal objeto de estudo. Ela é acompanhada por sua amiga de longa data, Beatriz, ou, para os mais íntimos, como é o caso da Clara, Bia ou diva linda maravilhosa deusa pra mim. As duas fazem cursos diferentes (Bia - como ela é chamada em todo o livro - estuda comunicação), mas ficam juntas enquanto vão até a faculdade, durante o intervalo e no retorno para suas casas.

Em certo ponto, quando aprendia sobre runas, Clara se depara com um símbolo o qual nunca viu, mas que parecia familiar. Ela, então, parece desenvolver uma certa "obsessão" (não chega a tanto, mas chega perto) por esta runa em particular. Tudo fica ainda mais estranho quando Clara, tentando recordar de onde conhecia aquilo, mostra para seus tios, que reagem de forma tensa e evasiva.

Tudo começa a ficar ainda mais estranho quando Clara começa a ter sonhos - pesadelos, na verdade - com runas. Em especial com aquela runa específica.

Mas, as coisas complicam de vez quando Clara começa a falar com o Mestre dos Magos Elias também conhecido como "o cara com a camiseta do AC/DC" ou "o doido das runas" (a Bia não tem um pingo de filtro na língua). Um rapaz misterioso que afirma também possuir descendência norueguesa (sobrenome Skjoldr) e que descreve os sonhos de Clara com uma clareza (sem trocadilhos) assustadora, sendo que a garota nunca havia contado para ninguém além de Bia, em quem sabia que podia confiar. Além disso, seus diálogos com Clara, na fase inicial, são sempre subjetivos e claramente (sem trocadilhos 2: o retorno) enigmáticos. De repente, Elias some, o que ele faz diversas vezes ao longo da história, aparecendo esporadicamente para as garotas junte isso com as frases enigmáticas e você vai entender o porquê de eu chamar o personagem de Mestre dos Magos.

Após alguns acontecimentos (que não vou mencionar por risco de spoilers), a faculdade das meninas ganha uma conveniente ajuda para realizar uma excursão, com o intuito de oferecer uma oportunidade de estudo para os alunos. Para onde vai essa excursão? Parabéns para quem respondeu Noruega.

A partir daqui, não posso mais mencionar os acontecimentos, já que a história toma o rumo desenvolvido até ali, o que significa que há risco de spoiler. Mesmo algumas partes antes da viagem eu deixei de fora, pois contribuem para a percepção do leitor sobre a importância de acontecimentos futuros.

O livro é uma fantasia bem construída. O ritmo do enredo é, em geral, mais lento, embora as informações apareçam quase que a todo instante. Isso contribui para o ar de suspense da obra, pois a velocidade na qual a história corre contribui para que quem está lendo fique na expectativa de ver como as coisas vão se encaixar. Além disso, o ritmo ajuda o leitor a absorver as informações, evitando o clássico infodump. A ação também é bem dosada e a escrita te dá a impressão de estar acompanhando cada passo praticamente em tempo real. Inclusive, ouso dizer que a ação não está entre os principais gêneros cobertos pelo enredo, embora seja frenética quando começa e gere uma grande angústia pelos possíveis destinos dos personagens. Não há um "quebra-pau desordenado". Cada movimento (ou a maioria deles, pelo menos) é analisado e planejado, uma vez que há situações onde o poder bruto não resolve. Também não posso dizer que há um grande plot twist, embora os que acontecem sejam bastante interessantes e bem inesperados. Não falo sobre não haver uma grande reviravolta porque é algo que fica óbvio antes do tempo, mas porque o acontecimento central (a junção de todas as informações) é construído de maneira ambígua. O seja: você fica "sem pai nem mãe" tentando descobrir se os personagens principais estão fazendo o certo ou não. Em nenhum momento os personagens que aparecem pelo caminho dizem de que lado estão. É como um embate ideológico, onde as partes contam as "suas verdades" (o que não quer dizer que estão mentindo), tentando convencer os envolvidos a "jogar para eles" e tentando fazer o lado oposto parecer errado. Inclusive, arrisco dizer que há mais de dois lados em conflito, neste enredo. Enfim, ao invés de uma grande revelação, a história te dá ferramentas para tentar descobrir qual o caminho que a protagonista deve seguir, aumentando a tensão e a expectativa pelo desfecho (esse sim, bastante inesperado).


Ambientação

Como dito, Clara mora no litoral catarinense, enquanto outra parte da história se passa na Noruega. Obviamente, esses são os únicos cenários explorados (na real até tem outro, mas seria um senhor spoiler se eu colocasse aqui).

O cenário de SC não é tão explorado, o que considerei um ponto positivo, pois, ao contrário da Noruega, as ambientações não possuem uma grande importância para o enredo. Isso evita a popular "encheção de linguiça" com informações visuais que não contribuem. Apenas o apartamento de Clara e a faculdade recebem uma atenção mais detalhada, sendo que no caso da faculdade a descrição é bem mais objetiva.

Quanto ao cenário ambientado na Noruega... aí sim! Todos os locais, as cidades e os pontos por onde os personagens passam são descritos com uma riqueza absurda de detalhes. Você literalmente  a Noruega nas páginas. Eu já fui para a Noruega? Cara... na minha vida eu mal saí do RS, sendo que as vezes em que eu fui foram a trabalho e não passei do único estado vizinho ao meu (que, para quem não sabe, é justamente SC). Quanto mais ir até a Noruega. Mas, como bom estudante de geografia, eu tenho que saber de algumas coisas. Vales, fiordes, cavernas, arquitetura, clima... tudo descrito de forma fiel e visual. Sem contar que há alguns detalhes no cenário contribuem para a história, o que torna as descrições plausíveis.


Personagens

Há três personagens que "ancoram" o enredo ao longo da narrativa: A protagonista Clara, obviamente; sua melhor amiga Bia, que foi, de longe, minha personagem favorita; e Elias, sobre quem não posso falar muito. Sei que há outros personagens importantes, mas estes aparecem em um estágio que já tornaria uma menção a algum deles em um spoiler.

Bia é simplesmente a voz da razão da Clara, seja durante as crises, onde ela sabe como lidar com a amiga, seja em momentos onde a emoção se sobressai. A personagem é positiva, sarcástica, sem filtro e muito leal à amiga. A personalidade dela é puro ouro. É a típica amiga que quando te vê curtindo uma deprê, vai até seu quarto te pegar pra dar uma volta e te tira a chutes de lá, se necessário. Todo o diálogo com ela é extremo. Ou despeja um caminhão de bom-humor irônico, ou um vespeiro que vai direto na cara da pessoa. É o tipo de amiga que vai dizer que você precisa dela porque ela sabe o que é melhor pra você, e quando você perceber... vai ver que ela está certa. Sem contar a maneira como ela age durante as crises sensoriais da Clara, que é digna de aplausos, mostrando que ela sabe o que fazer, o que prova mais um pouco o quanto ela se dedica à amiga, tendo aprendido até mesmo essa parte só pra cuidar dela.

Já o Elias é o cara que gosta de fazer mistério. Do nada ele surge, comenta alguma coisa que deixa as meninas intrigadas, e some de novo. É difícil até mesmo descrever a personalidade dele, pois parece agir conforme a situação. Em suas primeiras aparições, se mostra um rapaz de atitude serena e um pouco sombria, além de deixar claro que entende tanto - ou até mais - de runas quanto a Clara. É ele quem adiciona a primeira camada sombria do enredo, já que você fica na dúvida sobre se ele quer ajudar, tá tramando uma armadilha, ou só tá usando o mistério pra fazer as meninas de boba.

Outros dois personagens recorrentes, embora em escala menor (não muito menor, há de se ressaltar), são os tios de Clara, Lúcia e Erik. Neste caso, o que me chamou a atenção de forma muito positiva foi o fato de que o "elenco doméstico" não foi usado apenas como pano de fundo, mas foram personagens atuantes e de grande importância na história. Pelo andar do enredo, eu já imaginava que eles iriam ser mencionados, mas confesso que não esperava por uma participação ativa.


Narrativa

Para fechar, vamos falar da narrativa. Ela é feita seguindo o padrão das obras do Lucas, sendo contada diretamente pela protagonista (1ª pessoa) através de seu ponto de vista. Toda a visão da Clara é narrada com muita sensibilidade e seguindo sua personalidade, conseguindo imergir o leitor em suas emoções. Não há muito mais o que falar, visto que nós vemos todos os acontecimentos pelos olhos da Clara. O importante é que a narrativa é lúcida, te dá todos os detalhes necessários e acontece de forma fluída, com a protagonista contando a saga com palavras conforme sua idade, não falando igual a uma intimação judicial, mas também não carregando nas gírias.


O que eu achei

Sou suspeito pra falar. Não por ser amigo do Lucas. Mas, porque esse livro é justamente o tipo que me agrada. Uma aventura fantasiosa, com personagens complexos e que desenvolvem, enredo construído com uma atmosfera sombria, com alguns alívios cômicos no timing certo e ação que exige mais cérebro do que força, distribuindo mais as chances de sucesso e fracasso do que seria se apenas o nível de poder fosse considerado.

Enfim, quem gosta de aventuras repletas de magia e ação, estou certo de que não vai se arrepender. Pelo menos é como foi comigo.


Encerrando mais um domingo de atividade já tava na hora. Abaixo, coloco de novo o link para apágina de compra do livro na Amazon:

Clara Lysgaard e o Sol da Meia-Noite


Antes de me despedir, também estou deixando um link para um vídeo que postei no YouTube. É apenas um vídeo aleatório de uma cena que nem acontece, embora seja fiel às personalidades das personagens retratadas.

Óbvio que o vídeo foi gerado com IA. Não sei desenhar nem stickman. Quanto mais animar algo assim...

Mas, mesmo que seja algo até um tanto rápido, gostei do resultado.



Até o próximo domingo...

Blogs parceiros:
Pense Repense (Aline Duarte): https://penserepenseacd.blogspot.com/
Suspense em Palavras (Aline N): https://suspenseempalavras.blogspot.com/
Blog do MartinsVerse (Lucas Martins): https://blogdomartinsverse.web.app/#/

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